O dia da notícia. Isso foi 1 ou 2 meses antes de ela falecer. Até aí eu nem tinha esse pensamento em mente, achava que ela iria ficar bem, iria melhorar da sua doença. Então um dia, era de noite umas 19hrs, pedi pro meu pai para darmos uma volta de carro, achei que ele não iria aceitar como de costume, iria inventar desculpas idiotas que estava cansado e tal, mas dessa vez incrivelmente ele aceitou. Mas foi com uma condição: só se o meu irmão fosse junto com a gente. Convidei o Lucas pra ir com nós, mas ele disse que não queria... mas meu pai obrigou a gente a ir, eu não entendia porque ele tava agindo desse modo, insistindo que nós fossemos. Entramos no carro e fomos, meu irmão totalmente forçado a ir, e eu feliz da vida que ia sair um pouco de casa. Demos muitas voltas pela cidade, ele levou a gente pra muito longe... uns lugares em que eu nunca tinha ido. Eu percebi que ele tava super tenso, com uma cara de cu. Ele andou mais devagar e então falou ''seguinte pessoal, tenho uma notícia pra vocês, é muito séria, então não levem na brincadeira'', até ai eu pensei ''que porra é essa?''. Meu irmão estava no banco de trás, vi pelo retrovisor que ele ficou com uns olhões arregalados e prestou bem atenção. E então meu pai falou ''a mãe tem pouco tempo de vida...'' e nesse momento os olhos dele começaram a lacrimejar. Meu irmão começou a chorar na hora... nunca vi ele tão desesperado. Eu fiquei totalmente confusa e perdida, achava que ele tava brincando e falei ''pai, nem brinca com isso cara, é muito sério uma coisa dessas''. E ele ''achas que eu ia brincar com uma coisa dessa? já visse o estado da sua mãe? ela nao consegue mais comer, a comida não fica no estômago dela, ela nao tem forças nem pra caminhar, achas MESMO que ela tem uma vida longa?'' e então ele parou o carro e começou a chorar. E foi aí que eu entrei no berreiro mais longo da minha vida. Ficamos os três chorando dentro de um carro de noite em um lugar semi deserto, o carro cheio de melancolia e lágrimas. Acho que nunca chorei tanto na minha vida até ESSE ponto. Meu irmão foi o que mais ficou abalado... chorava soluçando e ficava perguntando ''porque?'' umonte de vezes. E foi quando ele falou ''e agora pai, a mãe não vai poder ver seus netos, não vai poder ver eu me casando, não vai poder ver eu crescendo'', foi aí que eu desabei mais ainda a chorar. Meu pai deu um abraço apertado em nós dois, como se fosse um time (e seria um time... mesmo sem a nossa peça principal, nossa guerreira) e falou ''agora nós três temos que nos unirmos, um tem que dar força pro outro, temos que ser uma família mesmo sem a nossa mulher''. E assim se foi, logo depois disso colocamos o cinto, o pai ligou o carro e fomos pra casa. Quando estávamos passando pelo centro, indo pra ponte, eu passei pro banco de trás, meu irmão tava descontrolado de tanto que chorava, dei um abraço mega forte nele e tentei acalmar o coitado, mas nada adiantou, ele foi se acalmando sozinho. Quando chegamos na garagem do nosso predio, o pai falou pra gente não chorar ou ficar triste perto da mãe, pois ela saberia que o fim dela estaria próximo, e isso não seria nada bom pra ela ... então abafamos a cara de choro e quando entramos em casa tava ela sentadinha no sofá, com o pijaminha azul dela, e quando olhou a gente ela deu um sorriso que me fez encher os olhos de lágrima. Eu falei ''oi mãe, oi vó!'', sorri e fui direto pro banheiro chorar mais ainda vendo aquela cena, doeu tanto ver ela sorrindo, confiante que ficaria bem. Depois quando minha Vó foi deitar, minha mãe ficou lá na sala, e então fui lá sentar com ela, eu raramente fazia isso... eu era uma filha horrível pra ela, e na real ? eu me arrependo de TUDO, de tudo o que eu não fiz com ela... queria ter sido carinhosa e atenciosa, mas bem quando eu poderia ser, eu recebo uma notícia dessas!
Uns dias depois desse acontecimento, eu fiquei mais perto dela, tentei ser mais carinhosa... uma boa filha, eu tentei. E ainda tem gente que reclama dos pais... se tivessem perdido uma mãe, saberiam o quão difícil e doloroso é ficar sem a pessoa que lhe carregou por 9 meses, que lhe amamentou quando pequena, que te educou, deu carinho, amor, roupas, brinquedos, atenção... TUDO. Não é qualquer uma que pode fazer isso, somente uma MÃE pode conceder tudo isso à um filho. Mãe a gente só tem uma, e tem que valorizar a cada dia, cada hora e a cada minuto o que essa guerreira fez por você em toda sua vida.
O dia da morte. Uma semana antes, lembro que fomos ao médico no Hospital de Caridade, ali no centro. Não sei por que, mas meu pai me convidou pra ir junto justamente nessa consulta, mas não convidou meu irmão pra ir também. Me arrumei, ajudei minha mãe a se arrumar, meu pai nos apressando sempre... pegamos os exames e fomos para o médico. Chegando lá, fui guiando minha mãe para a sala de espera enquanto meu pai arranjava lugar pra estacionar o carro. Minha mãe já conhecia os enfermeiros e todas as atendentes, achei estranho, mas nem falei nada. Tinha um em especial, que tratava ela super bem ... de um jeito cuidadoso, foi exatamente aí que eu estranhei. Fiquei pensando ''porque será que ele ta tratando minha mãe tão bem assim?'', mas fiquei quieta e não compartilhei esse pensamento com ninguém. Ficamos eu, meu pai e minha mulher na sala de espera. Ficamos uns 15 min esperando e minha mãe sentindo dor... até que ela foi chamada no consultório, entrou ela e meu pai e eu fiquei esperando na sala de espera junto com outras pessoas idosas que ficavam me olhando. Fiquei ali fora durante uns 30 min, fiquei meio preocupada mas daí saiu os dois do consultório, meu pai tava com uma cara de preocupado, minha mãe tava com uma cara que eu não consegui saber o que era. Meu pai nem olhou pra minha cara, ele só falou ''Dessa, fica aí com sua mãe que eu vou pegar o carro, eu paro ali na frente e vocês entram''. Tava chovendo muito. Guiei minha mãe pra ela sentar em um dos banquinhos, fiquei em pé esperando meu pai chegar. Enquanto ficava cuidando se o pai chegava com o carro, fiquei conversando com a mãe. Perguntei como tinha sido lá, ela tava meio que moscando, tava meio pensativa e não me respondeu. Perguntei novamente ''mãe? o que aconteceu lá? o que o médico disse? vai ter que tomar qual remédio?'' e então ela levantou os olhos nos meus e falou ''a mãe vai ter que ser internada aqui no hospital mesmo''. Fiquei tensa, mas achei que ficaria tudo bem... eu nunca tinha passado por uma coisa dessas, não sabia e nem entendia nada dessas coisas de internação e doença, sempre tive a esperança que tudo ficaria bem, pois com essa tecnologia avançada de hoje em dia, doenças impossíveis de serem curadas, têm cura. Então meu pensamento sempre foi esse... que ela ficaria bem, era só ter esperança, pois ela é a última que morre, certo? Olhei bem no fundo dos olhos dela e peguei a mãozinha frágil dela e falei ''relaxa mãe, vai ficar tudo bem, tu ta se dedicando ao teu tratamento, Deus sabe o que ta fazendo, ele quer te ver bem!'' ela sorriu e falou ''é filha, acho que dessa vez não vai dar, não''. Meu coração entrou em pânico, começou a bater num ritmo super acelerado, mas por fora tentei manter a calma e só falei ''que isso mulher, não pensa assim não, pensamento positivo que tudo vai dar certo!'' e então meu pai chegou, abri o guarda-chuva pra ela e levei ela pro carro. Chegamos na garagem do prédio, abri a porta do carro pra ela e levei ela até a porta do prédio, e pra subir as escadas ... meu pai teve que levar ela no colo, de tão frágil e fraca ela tava. Isso foi o que mais doeu em mim até aquele dia.
Depois de uns 2 dias, ela foi internada. No hospital, colocaram sonda pelo nariz dela, e nessa sonda circulava um liquido que parecia nescau, mas era um negocio que dava energia, vitaminas e esse tipo de coisa necessária pra ela, que tava fraca demais. Ela ficou internada 5 dias lá, e fomos todos os dias ver ela. As amigas DE VERDADE e os nossos parentes ficavam de noite lá com ela, mas só podia ficar mulher acima de 16 anos, e na época eu tinha 14. Dói MUUUUITO quando eu lembro dela naquela cama de hospital. Meu pai passava o dia todo com ela, travalhava de manha e depois do almoço ia lá e ficava junto com ela, admiro muito por ele nunca ter soltado sua mão no momento mais difícil. No dia 26 de julho de 2010, ultimo dia de vida dela. Fomos visitar ela, eu, meu irmão e minha Vó. Quando eu cheguei lá, meu Deus... parece que toda a felicidade da minha vida foi por água abaixo, só de ver ela no estado em que tava. Eu falava com ela, ela respondia bem baixinho, os olhos dela estavam quase fechados, ela não conseguia respirar direito, tava SUPER fraca, precisava de ajuda até mesmo pra virar pro lado na cama. Quando eu ia ver ela, eu pegava a mão dela e ficava todo tempo assim... apertava forte, ela tentava fazer o mesmo mas não conseguia. Nesse ultimo dia, ela não falou nada pra gente, e quando falava ela só perguntava ''cadê o pai?''. Ele passava segurança e atenção pra ela, minha mulher ficava assustada quando não via o pai por perto. Ela ficava olhando pra gente... só olhando, não falava nada, só olhava pra nós quatro, e tentava sorrir, dava um sorrisinho e fechava os olhos, depois abria e ficava olhando de novo. Acho que ela já sabia que o tempo dela tava acabando, ela sabia que não veria mais a gente depois daquele dia. Quando fomos embora, dei um beijo no rosto dela, olhei pra ela e falei ''te amo ta mãe'', ela ficou me olhando, deu um sorrisinho e fechou os olhos. Ela iria ser sedada, de tanta dor que tava sentindo. Pensei ''ufa! assim ela não vai mais sentir tanta dor!'' mas eu pensava que não tinha nenhum problema nisso, que seria igual os primeiros dias que ela tava internada. Eu sou ingênua com essas coisas, já falei. A mulher do meu primo (''tio'' Ricardo), Raquel, iria ficar com ela essa noite no hospital. Chegamos em casa, eu tava sentindo algo estranho, não sabia explicar, algo ruim, um clima tenso em casa. Meu pai foi deitar, minha vó foi deitar, meu irmão ficou no pc e eu fui ver umas fotos que ela tinha tirado durante toda a vida dela... ela adorava tirar fotos, tenho um baú gigante cheinho de fotos. E mais ou menos 02:00hrs da manhã do dia 27 de julho de 2010, toca o interfone. Imediatamente eu olhei pro Lucas, e ele olhou pra mim, nós dois com uma cara de ''ACONTECEU''. Meu irmão foi atender o interfone e eu perguntei de longe quem era, e ele respondeu que não sabia. Quando ele abriu a porta era a minha prima ''tia'' Déia, que entrou com uma cara de cautela. Ela olhou pro meu irmão e nesse olhar ele entendeu o porquê ela tava ali nessa hora. A Vó saiu do quarto colocando os óculos, e foi lá na sala junto com eles. Eu fiquei parada no corredor, vendo aquela cena dos três parados ali, a Vó e o meu irmão chorando, eu pensando ''caraca, aconteceu mesmo'', toda perdida, não sabia o que fazer, fui me juntar a eles. Nesse momento eu juro que achava que ''não, não ta acontecendo isso, por favor não ta acontecendo isso''. E então a tia Déia falou ''é gente, tava na hora, ela tava sofrendo muito'' e em pensamento concordei com ela, ela tava sofrendo MUITO mesmo, eu não queria que ela fosse, mas é egoísmo meu pensar assim. Ela falou que a gente precisava de uma roupa pra colocar no corpo dela, pro interro. Então foi eu e a Vó no guarda-roupas da mãe procurar algo. Uma vez quando eu tinha 7 anos a mãe falou brincando que quando falecesse, queria ser interrada com uma calça leve que ela tinha, pois não iria amassar. Nessa hora pensei nessa tal calça, eu sabia qual era, mas não existia mais... ela já tinha dado. Então a Vó escolheu uma roupa pra ela. A peça de cima era minha... era um casaco listrado que a mãe tinha pegado de mim. Era uma coisa pra mãe se lembrar de mim, quando eu não puder mais ver ela. Logo depois disso, nos arrumamos e fomos pro hospital. Foi MUITO bizarro. No estacionamento eu tava sentindo algo muito muito muito muito estranho, uma melancolia enorme no ar, parecia que toda a felicidade tivesse acabado no mundo. Chegamos lá em cima, perto do quarto em que ela estava antes, e lá estavam alguns dos meus parentes. Agora sim, que tudo tava claro, ela tinha mesmo se ido, foi aí que eu tomei o rumo da situação... antes eu tava perdida, quando cheguei no hospital eu tava perdida, não sabia o que tava acontecendo, achava que não era verdade, tinha alguma esperança que ela estivesse viva, mas não... foi quando eu vi meus parentes ali que eu vi que era verdade, a mãe não tava mais ali conosco. Comecei a chorar descontroladamente, soluçava, meu coração doía e pedia por mais choro, e foi minhas tias e primas que me acalmaram. Meu irmão foi ver o corpo da minha mãe que tava numa salinha do lado do quarto. Ele saiu de lá em prantos... mais descontrolado que eu, foi chorar nos braços das minhas tias. Foi quando eu me acalmei do choro, que minha Vó falou ''vem filha, vamos ver o corpo da mãe'' e me guiou pra salinha. O corpo dela tava coberto com um pano. Eu tirei o pano devagar de cima do rosto dela, e os olhos e boca estavam com esparadrapo, pois senão a boca e os olhos estariam abertos. Ela já estava gelada. Com dor no coração, eu coloquei a mão nas bochechas dela, e a outra mão na mão dela. Doeu muito. Não deu... tive que sair imediatamente dali, não dava de ver a minha mãe, a mulher da minha vida, naquele estado. Depois de uns 10 minutos me acalmei, fui procurar meu irmão. Ele tava no final do corredor, onde tinha uma janela que dava de ver o mar e a ponte. Fui lá, cautelosa, dei um abraço bem forte nele. E ficamos ali, quietos, olhando pra cidade, sem falar nada. Do nada ele fala ''Deus sabe o que fez. É pro bem dela...né?'' olhei pra ele, mas ele não olhou pra mim, então falei ''claro cara, visse o estado que ela tava? ela ta bem agora, Deus vai cuidar da nossa mulher, e lá ela não vai sentir mais dor, ela só vai sentir alegria, e de qualquer jeito ela vai ta perto da gente hein feio''. Ele deu um sorrisinho forçado e ficou quieto. Olhei pro céu, e incrivelmente eu vejo uma estrela cadente, caindo bem ao horizonte, bem na minha frente. Em 15 anos morando nessa cidade, NUNCA vi uma estrela cadente, essa foi a primeira vez, e pode até parecer idiotice mas acho que foi um sinal, um sinal de que ela tava bem. Bem na hora eu ouço passos atras da gente, era meu pai. Ele tinha ido ao cartório pegar o atestado de órbito. Primeira coisa que ele fez foi dar um abraço mega apertado na gente. Ele tinha saído antes lá de casa, antes da tia Déia chegar. Ele viu a minha mãe morrer nos braços dele. Ligaram primeiro pra ele, ele saiu escondido, depois ele pediu pra tia Déia ir buscar nós enquanto ele saia com o sobrinho dele pra pegar o atestado. Falei pra ele que eu tinha visto uma estrela cadente e ele disse olhando bem no fundo do meu olho, bem sério ''é filha, é Deus mandando um sinal de que ela ta bem. Quando minha mãe (a Vó Lóla) faleceu, no dia em que estávamos levando o corpo dela pro interro, eu vi um arco íris saindo de uma nuvem. Pra mim aquilo foi um sinal, como é um sinal esse que recebesse''. Me senti bem depois do que ele disse. Ela tava bem. Ele deu um beijo no meu rosto e saiu, foi fazer não sei o que. A Vó meio pra perto de nós e falou pra gente ir pra casa arrumar as malas, pois o corpo da mãe seria velado na nossa cidade natal, Santa Maria-RS. Tia Déia levou a gente pra casa, meu pai ficou resolvendo os negócios que tinha que resolver. Ele falou pra mim arrumar a mala dele, e foi a primeira coisa que eu fiz quando cheguei. Arrumei tudo chorando... como isso poderia ter acontecido? tão repentinamente? eu não tinha noção do quão era rápida a situação, não tinha noção de nada. Arrumei as malas, coloquei tudo no corredor de casa. Iríamos partir as 07 da manhã. O corpo seria levado por um carro funerário, iria ser uma longa viagem.
Velório. Chegando na cidade, primeira coisa que a gente fez foi ir direto pra casa da minha tia e da minha dinda, elas moram juntas junto com a Vó, só que a Vó tava com a gente ajudando a cuidar da mãe. Chegamos lá, tavam as duas esperando nós, quase chorando. Junto delas, estavam a minha ''prima'' Camile e a minha ''tia'' Norma. Descemos do carro, minha tia e a minha dinda vieram abraçar a gente. Foi aquele abraço gosto e confortante, que só os parentes tem. Começamos a chorar na hora, mas foi um choro do tipo ''aconteceu...'', logo depois veio a minha prima e a minha tia Norma nos abraçar. Tia Norma não tinha o papel de nos ajudar, ela não é quase nada minha... ela não é minha tia. Mas ela foi uma das pessoas que não são parentes, que mais ajudaram, que mais nos deram força. Fomos lá pra dentro, porque era inverno lá na cidade, estava super frio... entramos em casa, sentados e comemos alguma coisa, logo depois disso fomos pro necrotério. Necrotério. Essa palavra sempre me causou um certo medo. Quando chegamos la, tava quase nossa familia toda já, parentes aqui de florianópolis e parentes lá da cidade mesmo. Cheguei, não sabia o que fazer, tava super perdida, quando vi o meu tio Manoel... eu comecei a chorar. Ele tava olhando pra gente com um olhar triste, mas penoso. Tinha parentes da minha mãe que eu nunca tinha visto na minha vida. Vizinhos, amigos de infancia da mãe, colegas de trabalho da cidade, tudo. Estavam todos lá. Entrei na em uma sala onde todos choravam... e então eu vi um caixão. Entrei em panico, fiquei sem ação. Fiquei parada olhando o caixão. Vi um rosto muito branco, mas que estava sorrindo... era um sorriso de ''descancei, nenhuma dor mais agora''. No topo de sua cabeça tinha um vel rendado, ela parecia uma santinha. Não quis olhar o que tinha mais. Comecei a chorar, me levaram pra uma salinha que tinha do lado dessa sala onde ela estava. Meu irmão estava lá, eu nunca vi ele chorar tanto na minha vida. Tavam tentando acalmar ele. Ele só olhava pro chão, tremia e colocava a mão na cabeça, como se tivesse decepcionado. Minha prima Gabriela e uma grande amiga minha Bethyna vieram me abraçar, foi um abraço que me deu forças. Elas ficaram lá comigo, tentando me consolar. Em seguida veio falar comigo o meu tio, o Guta. Ele sentou do meu lado, olhou beeeem fundo nos meus olhos e sorriu. Aquele sorriso me deixou bem. Eu, ele e a mulher dele, a Leka, já tivemos algumas conversas muito interessantes sobre espiritos e esse tipo de coisa. Então, ele me falou ''ela tá bem, pode acreditar'' e falou num tom de certeza. E então eu olhei pra ele e parei de chorar na hora e sorri. ''Serio? tu viu ela?'' e ele falou ''eu vi ela sorrindo, ela tava bem, não tava mais sentindo dor''. Então foi aí que eu tive certeza que ela estava bem mesmo, nas mãos de Deus! Depois disso todo mundo saiu da sala, deixaram eu e meu irmão sozinhos. Sentei do lado dele, abracei ele forte, ele já tinha parado de chorar, mas tava sem ação. Tava quieto olhando pro nada, bem pensativo. Depois disso entraram na sala e perguntaram se a gente iria ficar ali até a hora do interro no dia seguinte, as 8hrs da manha. Eu quis ir pra casa, meu irmão quis ficar. Indo pro carro eu comecei a chorar de novo, e então tia Norma me deu um abraço bem apertado, e eu falei ''e agora tia, quem vai cuidar de mim?'' e ela falou ''não maninha, a gente vai cuidar de ti!'', isso me deixou mtmtmtmt feliz, por saber o quanto minha família e meus parentes são importantes, o quanto eles me dão força e carinho, pra qualquer coisa e pra qualquer hora. Cheguei na casa, comi e fui dormir. A minha dinda Vilma me acordou as 07:30, pra mim me arrumar, pois o velório seria as 8, já tinhamos que estar mais cedo lá. Me arrumei bem sem jeito, não sabia como seriam as coisas lá. Chegando lá, tava todo mundo sentado nas cadeirinhas, uns em pé... entrei na salinha e todo mundo ficou me olhando, olhei o caixão, então vi meu pai e meu irmão sentado um do lado do outro. Fui lá abraçar eles e ficar junto deles. Dei uma espiadinha no caixão e vi ela lá... sorrindo. Doeu, desviei o olhar e comecei a lacrimejar. Esperei, pois não sabia o que iria acontecer direito. Minha prima Gabriela e uma amiga de infancia minha, a Mariana, vieram me abraçar, ficaram ali comigo segurando minhas mãos. Minha Vó chamou eu, o Lucas e o pai pra darmos um ultimo Adeus pra mãe. Doeu, cara. Doeu muito mesmo. Ultima vez que eu iria tocar no corpo dela. Olhei pro rosto dela, aquele sorriso ... ela tava bem. Coloquei a minha mão nas mãos delas, estavam geladas e frias, e juntas ... e mais uma vez, como já era costume ... comecei a chorar. O padre veio falar umas palavras antes de levarem ela pro cemitério. É, já tava perto de eu nunca mais ver ela. Nessa parte do cemitério, foi a dor mais doída, mais sofrida, mais agoniante, mais horrorosa e mais apavorante que eu já senti em toda minha vida. Ela iria ser interrada no mesmo túmulo em que meu Vô tinha sido interrado. Os ossinhos dele iriam ser colocados junto com o caixão da mãe. Enfim eles estariam juntos de novo! As duas dores mais tensas que eu senti nessa hora ? quando meu irmão ajudou a carregar o caixão da mãe pro túmulo. Essa doeu muito, pois nunca tinha imaginado que a gente passaria por isso com ela, ou com meu pai. Achava que meus pais nunca iriam morrer. Ta, não, eles iriam morrer sim, mas não tão cedo! Achava que eu entenderia a morte antes de um deles partir. A outra dor mais tensa, foi quando eu vi o ultimo tijolinho sendo colocado pra fechar o túmulo. É, agora sim, eu nunca mais poderia tocar nela de novo! E agora sim, ESSE foi o dia mais triste da minha vida, o dia em que eu mais chorei na minha vida. Quando estávamos voltando pra Floripa, meu pai me contou o momento em que ela morreu. Ela não conseguia respirar, entrou em pânico, e chamava pelo meu pai, e dizia ''eu tô morrendo, eu to morrendo!''. E então depois de um tempo ela falou ''fica longe, senão eles não vem me buscar... ta tudo bem agora''. Pra uma mulher que não acreditava em espíritos, ela sabe quem veio buscá-la. Eu acredito nisso. As vezes eu sinto ela perto de mim ... as vezes quando eu to triste, antes de dormir eu sinto que ela ta do meu lado, mas obviamente não tentando me fazer mal, somente tentando passar a mensagem de que eu não to sozinha no mundo, que ela sempre vai ta comigo. As vezes de madrugada quando eu acordo pra ir no banheiro ou ir na cozinha, eu levanto e me olho no espelho e vejo ela refletida no espelho. É bom. Ela ta sempre sorrindo.
Minha mãe Angela, morreu no dia 27 de julho de 2010, no Hospital de Caridade, às 01:20hrs da manhã, por parada respiratória. Ela tinha câncer no estômago, e era muito guerreira, pois acreditava que tudo ficaria bem, que ela iria conseguir vencer a doença, e todas as dificuldades. Agora ela é um anjo, o meu anjo. Ela tá nas mãos de Deus agora, muito bem protegida, num lugar feliz e onde não sente mais dor nenhuma. E... ta sempre do meu lado. Amor de mãe nunca morre! de filha também não.
É, mais do que nunca... pais não deveriam morrer, deveriam durar pra sempre.